Procura

Contactos

 Os nossos e-mails:
 cidadaniaecasamento@gmail.com

 Para organização de debates:
debate@casamentomesmosexo.org

 Para envio de documentos:
documentos@casamentomesmosexo.org

 Contacto de imprensa:
imprensa@casamentomesmosexo.org


 A nossa morada:
 Apartado 50.003, 1701-001 Lisboa
 PORTUGAL

 

Ajude-nos

 Transferência bancária:

 NIB 0010 0000 4379 5060 0013 0

 

Casamento "gay", O. J. Simpson e Sherry Jones. João Pereira Coutinho. Expresso, Versão para impressão Enviar por E-mail
Segunda, 13 Outubro 2008 11:14

João Pereira Coutinho

João Pereira Coutinho

 

INFERNO

Casamento "gay"

Abomino histerias. E o casamento "gay" é histeria. Segundo dizem, recusar o casamento a pessoas do mesmo sexo é uma "discriminação". As pessoas dizem a palavra - "discriminação" - e esperam que eu me comova. Não me comovo. Claro que é uma discriminação. E daí? Todos os dias, a todas as horas, sobre as mais variadas personagens, a sociedade exerce as suas "discriminações". Se, por mera hipótese, eu pretendesse casar com duas mulheres, estaria impedido pela força da lei. Não será isto uma "discriminação"? Por que motivo o Estado impede que três adultos que se amam possam construir uma família em conjunto?

Arrisco hipótese: porque a sociedade estabeleceu os seus códigos de conduta, os seus símbolos, as suas "instituições". São estes códigos, estes símbolos, estas "instituições" que sustentam a vida em sociedade e não vale a pena questioná-los por cálculo racionalista. Acabamos por chegar a conclusões francamente lunáticas. Se o casamento passasse a ser um mero contrato baseado no afecto (a visão sentimental da tribo), não haveria nenhuma razão substancial para impedir todas as formas possíveis de casamento: entre pais e filhos; entre irmãos; entre duas mulheres e um homem; entre uma mulher e vários homens; etc.

? justo que duas pessoas do mesmo sexo que partilham uma vida em comum possam assegurar certos direitos sucessórios ou fiscais. Não é justo desmontar o casamento tradicional para acomodar o capricho de uns quantos. Pior: o gesto apenas abriria uma nova forma de "discriminação" sobre todos os outros - pais e filhos; irmãos; duas mulheres e um homem; uma mulher e vários homens - que são deixados injustamente à porta do matrimónio. Tenham juízo e, já agora, portem-se como homenzinhos.

PURGAT?RIO

O. J. Simpson

Ninguém esquece Dostoiévski. E ninguém esquece Crime e Castigo, a história de Raskolnikov, o criminoso que mata por megalomania niilista e depois é devorado pela sua consciência. Quando li o romance, algures na adolescência, o que me impressionou não foi a natureza do crime ou a violência do criminoso. Foi a observação do inspector da polícia, para quem Raskolnikov acabaria por entregar-se às autoridades, derrotado pela culpa. O inspector não mexe um dedo; aguarda; até ao dia em que Raskolnikov vem ter com ele, mais doce do que um cordeirinho. Bingo.

Lembrei tudo isto com a saga de O.J. Simpson. Em 1995, e contra todas as evidências (ADN, fuga à polícia, etc.), O.J. Simpson foi ilibado da morte da mulher e de um amigo por razões politicamente correctas: o advogado agitou o fantasma do racismo e o júri acreditou. Mas a absolvição pesou na vida de Simpson, que procurou exorcizá-la com lapsos freudianos de proporções gigantescas. Há uns anos, em atitude infame, Simpson publicou um livro onde descrevia, a título hipotético, como teria morto a mulher e o amigo - uma forma tortuosa de confessar que realmente o fez.

E, depois disso, o homem juntou-se a um gangue de delinquentes para cometer crimes inaptos, oferecendo-se novamente à captura e à justiça. Como um cordeirinho. Levado a tribunal, foi agora condenado no exacto dia em que passaram 13 anos sobre a sua insuportável absolvição passada. Ouvirá a sentença em Dezembro. Prisão perpétua é uma possibilidade.

Rezam as crónicas que, no momento da condenação, familiares e amigos gritaram de horror e desmaiaram no local. Simpson nem espirrou. Percebe-se. Para quem leu Dostoiévski, a expressão no rosto de Simpson tem nome. Chama-se alívio.

PARAÍSO

Sherry Jones

PARECE QUE Sherry Jones encontrou editora nos Estados Unidos. Quem é Sherry Jones? Trata-se da autora de The Jewel of Medina, o romance histórico que recria os amores conjugais entre Maomé e Aisha. A Random House, inicialmente interessada, rasgou o contrato e recusou-se a publicar a "blasfémia".

Em Inglaterra, o editor da senhora teve uma bomba dentro de casa. E, nos quatro cantos do mundo, Portugal incluído, os profissionais da edição fugiram da obra como Maomé do toucinho. Felizmente, parece que ainda há coragem em certos antros e uma pequena editora americana pretende avançar com o livro. O editor inglês, apesar da bomba, também. E a sra. Jones, depois deste, já está a escrever outro com tema igualmente polémico: o cisma sunita-xiita, que permanece até hoje com os resultados conhecidos.

Não li o livro. Confesso que não vou ler. Mas o caso permite adivinhar o rumo futuro que as sociedades liberais acabarão por trilhar em matéria de liberdade de expressão. Há uns anos, quando Khomeini condenou à morte o escritor Salman Rushdie por Os Versículos Satânicos, não faltaram por aí intelectuais indignados que não hesitaram em ladrar contra os "ayatolahs". Mas depois do 11 de Setembro, e sobretudo depois do terrível Bush, parece que os intelectuais entraram em hibernação. Tudo para respeitar o Islão radical, como se o Islão radical merecesse algum respeito. Hoje, censura-se a sra. Jones. Mas, amanhã, não será de excluir que vastas parcelas do nosso património intelectual pouco meigo com o Profeta - da poesia de Dante às sátiras de Voltaire - sejam enfiadas no caixote do lixo. Por medo ou sob ameaça, o Ocidente estará, finalmente, quieto e silencioso. Como no cemitério.

 

Ler artigo no contexto original