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Admirável mundo novo. Netprof. Versão para impressão Enviar por E-mail
Terça, 27 Fevereiro 2001 00:55

"Quanto mais sei, mais sei que nada sei". No dia em que, em cinco capitais, os cientistas divulgam o resultado de uma das mais fantásticas aventuras do conhecimento da era moderna, apercebemo-nos melhor do pouco que sabemos. E somos.
Afinal, o genoma humano tem apenas uns 30 mil genes. O dobro da mosca da fruta. Metade de um grão de arroz. E sensivelmente o mesmo de um ratinho de laboratório. Mais: apenas 300 desses 30 mil genes são diferentes. O que quer dizer que, ao sequenciarmos os seis mil milhões de letras do nosso ADN, descobrimos, perplexos, que a explicação para a imensa complexidade do ser humano não está apenas nesse código. Está na relação entre os genes e na relação destes com as proteínas. Na forma como são dadas as instruções numa célula óssea ou num neurónio. E na forma como as instruções matriciais do código genético de cada ser humano reagem aos estímulos exteriores.
O que faz a diferença humana não é número dos seus genes - é a complexidade das suas relações.
Houve um tempo em que se pensava que lendo a forma do crânio se conseguia ler o carácter de uma pessoa. Uma fita métrica seria suficiente para saber se estávamos perante um assassino ou um génio musical. Hoje conhecemos a amplitude de tais disparates, mas ainda acreditamos - ou acreditávamos - que íamos descobrir nos genes a inteligência, a homossexualidade, a agressividade ou a inclinação para as artes, da mesma forma que encontramos a determinação da cor dos olhos ou da pele. A descoberta de que temos apenas 30 mil genes torna essa pretensão tão disparatada como a dos deterministas do século passado.
? certo que existem nos tais seis mil milhões de letras muitas instruções que podem condicionar muitos aspectos da nossa personalidade - o que parece não existir é uma relação directa "gene X"-"característica Y". O que parece existir é um jogo complexo de influências que activam e desactivam genes, ou que permitem que o mesmo gene esteja na origem de proteínas diferentes conforme a célula ou o ambiente circundante.
Ao longo dos próximos anos vamos aprender muito mais sobre estas relações e sobre a forma como o alfabeto da vida determina ou condiciona cada passo da vida. Mas tal como na física quântica se descobriu que não se pode determinar o lugar onde se situa em cada momento cada partícula atómica, na genética estamos a aprender que conhecer a sequência exacta do ADN de um recém-nascido não vai automaticamente permitir saber se ele terá aptidão para a matemática.
A primeira vítima da revelação do genoma humano é, pois, o determinismo biológico.
Ao descobrirmos as nossas semelhanças com o verme Caenorhabditis elegans, com quem partilhamos dez por cento dos genes, quase letra por letra, e ao descobrirmos o pouco que separa as diferentes populações humanas, fazemos ruir um mundo de preconceitos.
As chamadas diferenças raciais, por exemplo, são determinadas por uma parte minúscula dos nossos genes. Mais: é por vezes possível encontrar maiores diferenças genéticas entre duas pessoas que vivem na mesma cidade e se parecem superficialmente, do que entre um negro africano e um louro escandinavo. De resto existe maior variação genética entre os negros africanos do que entre as populações de todo o resto do mundo.
O racismo é, por isso, outra das vítimas deste apaixonante avanço científico.
Estas admiráveis descobertas colocam a Humanidade no limiar de um mundo novo. Um "admirável mundo novo", tal como imaginou Aldous Huxley? Depende de nós, depende de todos.
Da mesma forma que o nosso ADN não é responsável pelos nossos disparates, as portas que a ciência abre não conduzem obrigatoriamente ao céu ou ao inferno. A sequenciação do genoma, a que partir de ontem qualquer cientista pode aceder clicando na Internet, abre enormes possibilidades no combate às doenças, no melhoramento de vacinas ou no diagnóstico precoce de enfermidades. Mas, se os Estados avançados onde decorreu a investigação não tomarem medidas, podem também abrir-se portas aos piores pesadelos.
Importa pois tomar precauções. Importa regular o regime das patentes, conciliando a necessidade de motivar os laboratórios privados com a obrigação de tornar os novos medicamente acessíveis mesmo aos mais pobres. Importa regular os testes genéticos, obstando a que estes se tornem motivos de discriminação no emprego ou na obtenção de um seguro de saúde. Importa regular a manipulação dos genes humanos, separando o que é boa ciência do que são aprendizes de Frankenstein.
Os cientistas estão a fazer o seu papel. Importa que os responsáveis políticos cumpram também as suas obrigações, prevenindo um futuro que tem obrigação de ser admirável.

Adaptado de Público, Fevereiro 2001

 

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Actualizado em Domingo, 31 Janeiro 2010 01:03