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Os gays de Manuel Alegre. Henrique Raposo. Expresso online. Versão para impressão Enviar por E-mail
Quinta, 27 Janeiro 2011 09:59

O esquerdismo nos nossos media tira as luvas nos momentos eleitorais. Alegre disse que a "adoção por gays ainda me causa engulhos". Ninguém disse nada. E, desde domingo, a vitória não é de Cavaco, mas sim da abstenção. Etc,. etc., etc. 

 

 Henrique Raposo

 Henrique Raposo

 

Bem sei que os media portugueses são um campo esquerdista. Bem sei que os nossos media criam em Portugal uma atmosfera esquerdista sem paralelo na Europa (talvez com a exceção da Grécia e de Paris). A atmosfera de esquerda é o nosso senso comum. ? assim, e um tipo tem de se habituar. Tudo bem. Mas durante os momentos eleitorais a coisa fica ainda mais assanhada. Nos momentos eleitorais, fica ainda mais à vista a existência de um regime moral e mediático para a filha, a esquerda, e de um regime moral e mediático para a enteada, a direita. Por exemplo: ainda antes do início da campanha, Alegre deixou cair esta pérola: "a adoção por gays ainda me causa engulhos". Esta frase não causou a mínima polémica. Ninguém confrontou Alegre, ninguém fez perguntas sobre isto . O que é estranho: Alegre é apoiado pelos dois partidos que mais lutaram pela causa gay. Se Cavaco tivesse dito semelhante coisa, meus deus, gritos de "morte ao ultramontano de Boliqueime" teriam ecoado em todas a redacções.

II. E repare-se no rescaldo maintream da noite eleitoral: até parece que Louçã e Alegre não perderam em toda a linha. Aliás, nos media portugueses, Louçã e o BE nunca perdem. Do discurso de Louçã, as TVs só mostraram a farpa que ele lançou ao PSD e CDS. Eu sei que é cool apoiar o BE e não sei quê. ? como gostar da banda que está na moda. Eu percebo isso. Mas podem disfarçar um bocadinho. E também podiam mostrar os momentos em que a cara de Louçã era um tratado sobre um tema antigo: o espetanço da arrogância, esse momento em que a hubris encontra uma parede de betão.

III. Mas o mais divertido é mesmo a forma implícita como muita gente anda a dizer que a vitória de Cavaco não tem legitimidade. Pois claro: quando a esquerda ganha eleições, ganha mesmo; quando a direita vence eleições, calma, que a vitória é da abstenção. No fundo, o spin que anda por aí quer passar a mensagem que Cavaco não tem legitimidade para dissolver a assembleia. Que notável argumento. Isto é o mesmo que dizer que Sampaio não tinha legitimidade para derrubar Santana em 2004 (a abstenção da segunda eleição de Sampaio também chegou à casa dos 50%). Isto é o mesmo que dizer que PS não tinha legitimidade para governar devido à alta abstenção nas últimas legislativas. Isto é o o mesmo que dizer que a maioria absoluta de 2005 não tinha legitimidade, porque o PS só recolheu o voto de 21% dos inscritos.

IV. Claro que o argumento da falta de legitimidade de Cavaco é patético, mas a forma como anda a circular diz tudo sobre a atmosfera esquerdista que se respira em Portugal. Aqui, a esquerda pode tudo, logo, quando a direita ganha, é preciso inventar desculpas para retirar legitimidade à dita direita. Ou seja, mesmo que ganhe na legalidade democrática, a direita nunca tem legitimidade moral para governar. ? a intrusa no país dos dois sistemas morais.

 

 

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Actualizado em Quinta, 27 Janeiro 2011 14:24